Bocage

Bocage não se encaixa numa corrente literária definida. Os seus sonetos revelam uma certa confusão de escrita e forma. Usa vocabulário de várias correntes, nomeadamente, pré-romântica e neoclássica.
A sua fama ultrapassou a barreira do tempo e ainda hoje se fala constantemente dele. Quem não conhece uma anedota sobre uma façanha de Bocage? É esta a sua faceta mais conhecida, embora não corresponda à realidade.
A sua poesia demonstra admiração pelos ideais da Revolução Francesa. Por isso mesmo foi acusado pela Inquisição de ser “destruidor de costumes”.
Admiro-o. Bocage nunca teve medo de arriscar. Disse sempre o que pensava, embora a crítica estivesse camuflada. A verdade é que as suas ideias não foram bem aceites na sua época.
O que importa reter da vida deste poeta é realmente a sua coragem e evidentemente o seu talento!
Como todos os “heróis” teve um fim bem dramático! Apesar do apoio de alguns amigos, Bocage morreu só, doente e na miséria!
Não sou pessimista! Apenas admiro a construção clássica, a suavidade de frase, a melodia dos sons, a modulação e a cadência do verso, que nos sensibiliza pela sua naturalidade. Para deleite pessoal, transcreve-se o soneto, que traduz um pouco a sua vida:
Apenas vi do dia a luz brilhante
Lá de Túbal no empório celebrado,
Em sanguíneo carácter foi marcado
Pelos Destinos meu primeiro instante:
Aos dois lustros a morte devorante
Me roubou, terna mãe, teu doce agrado;
Segui Marte depois e enfim meu fado
Dos irmãos e do pai me pôs distante:
Vagando a curva terra, o mar profundo,
Longe da pátria, longe da ventura,
Minhas faces com lágrimas inundo:
E, enquanto insana multidão procura
Essas quimeras, esses bens do mundo,
Suspiro pela paz da sepultura.
Joana Freitas – 12.º F
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DESCOBRIR BOCAGE
Durante muitos anos, fui construindo a minha imagem de Bocage. Era uma imagem feita de anedotas e de pequenas histórias caricatas, pintadas de palavras obscenas, que a minha avó me contava, quase secretamente. A imagem de um boémio, de um vagabundo e de um homem livre.
Já estudante do liceu, encontrei um Bocage diferente: o Bocage da sensibilidade pré-romântica, em que a Natureza é metáfora do tumulto interior. Nos seus versos, encontrei as superstições populares, o equilíbrio da forma e a agonia de um «eu» que se confessa. Descobria, aos poucos, o homem inadaptado a uma sociedade que o desprezava, como já fizera com Camões e como tantas vezes faz aos grandes génios. Encontrava, em muitos sonetos, a erudição do «Elmano Sadino», uma espécie de «nome de código», adoptado ao entrar para a Nova Arcádia. O nome arcádico homenageia o Sado e a cidade onde nasceu, Setúbal, em 1765.
Bocage renasce, agora, depois de comemorarmos o segundo centenário da sua morte, na série homónima da RTP. Em cada episódio, descobrimos a personalidade multifacetada de um dos nossos maiores poetas, simultaneamente popular, erudito e, sem dúvida, controverso.
Luís Pinto Salema
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